segunda-feira, 22, julho 2024
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O que sentimos na hora da morte, segundo a ciência

Neurociência pode explicar o que acontece no corpo humano no breve momento entre a vida e a morte

Por: CNN

Embora seja uma certeza irrefutável, a morte permanece como um dos maiores mistérios da humanidade.

De um lado, construções culturais, religiosas ou mesmo filosóficas estimam o que podemos encontrar do outro lado.

De outro, a ciência pode explicar o breve momento entre a vida e a morte.

A morte do ponto de vista neurológico

Do ponto de vista neurológico, no momento da morte, o sistema nervoso central deixa de funcionar de uma forma permanente e definitiva. Os mecanismos disparados no organismo podem ser diferentes de acordo com a forma como cada indivíduo morre.

Quando uma pessoa morre lentamente, como em casos de falência de múltiplos órgãos, o corpo humano tende a priorizar o cérebro, o coração e os rins.

“Existe um processo lento e progressivo que pode acontecer em algumas situações, como por exemplo um indivíduo que entra em falência de múltiplos órgãos. O que ocorre lenta e progressivamente é que os órgãos principais são priorizados, como por exemplo o cérebro, o coração e os rins. Os outros órgãos vão sofrendo. No decorrer do tempo, tudo para, como se fosse um ônibus que colide com um poste. Quem está dentro, aos poucos também vai sofrer uma desaceleração e para de ter o movimento em ação”, explica o médico neurocirurgião Fernando Gomes, professor livre-docente do Hospital das Clínicas de São Paulo.

O médico neurologista Felipe Chaves Duarte, do hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, explica o que acontece em casos de mortes que não envolvem o cérebro inicialmente.

Quando um paciente morre por causas não neurológicas, lentamente há uma perda da regulação da pressão arterial dos vasos da cabeça, com redução do aporte de oxigênio e glicose. Com isso os neurônios entram em morte celular por hipóxia, que é a falta de oxigênio, e ocorre uma isquemia das células neuronais. Elas extravasam seu conteúdo para o meio ao redor das célula e param de funcionarFelipe Chaves Duarte, médico neurologista

Após a morte neuronal, dependendo do tipo de cuidados médicos que o paciente recebe, como por exemplo aqueles oferecidos em unidade de terapia intensiva (UTI), outros órgãos do corpo podem permanecer funcionando com o uso de medicamentos e suporte de aparelhos de ventilação mecânica.

“Esse estado é diagnosticado por especialistas e chamado de morte encefálica. Quando ocorre a morte encefálica, não existe mais a consciência do paciente. Ele não consegue mais pensar ou perceber o meio ao redor. Ele deixa de existir como pessoa e seus órgãos fora do sistema nervoso continuam funcionando de forma artificial”, afirma Duarte.

Morte das células

Os especialistas explicam que a morte das células acontece de maneira progressiva. A ordem com a qual o processo acontece depende da causa da morte.

“Se um corpo que sofreu morte encefálica continuar sendo mantido de forma artificial, os órgãos fora do sistema nervoso podem continuar funcionando por semanas. Caso o coração pare de bater, como uma parada cardíaca, órgãos como o pulmão podem se manter viáveis para transplante por até 4 horas e órgãos como o rim por até 36 horas desde que armazenados em recipientes adequados”, aponta Duarte.

Dentro do cérebro, algumas células que sozinhas não consegue manter a atividade cerebral podem sobreviver por horas após a declaração da morte.

Quando um paciente tem morte cerebral, as primeiras células que morrem são os neurônios, como explica o neurocientista Fernando Gomes.

“Esse tipo de célula consegue permanecer em situações normais de temperatura e pressão até cinco minutos sem o aporte de oxigênio. Depois disso, lesões irreversíveis acontecem nessas células e, em um contexto geral, isso pode provocar o que nós chamamos de morte cerebral. É questão de tempo até que todo o corpo deixe de funcionar principalmente se não tiver um suporte de terapia intensiva”, afirma.

Segundo o especialista, as células que duram mais sem o aporte de oxigênio são as epiteliais da córnea, que recebem o elemento químico de outra forma, e podem durar cerca de 6 horas após a morte, permanecendo viáveis para transplantes nesse prazo, por exemplo. Outros órgãos, quando são utilizados para transplante, precisam de suporte especial para a sua manutenção como, por exemplo, resfriamento ou soluções químicas específicas.

/ Marek Piwnicki/Unsplash

O que podemos sentir no momento da morte?

Um trabalhou chamado Aware, publicado em 2014 na revista Ressuscitation, entrevistou 101 pacientes que tiveram uma parada cardíaca e foram salvos por tratamento médico. Quase a metade relata não lembrar de nada. Pouco mais de 40% relatam memórias detalhadas, como ver plantas ou pessoas ou sentir um medo intenso. Cerca de 9% relatou fenômenos compatíveis com experiências de quase morte.

Em um outro estudo, publicado no periódico científico Frontiers in Aging Neuroscience, pesquisadores conseguiram analisar, pela primeira vez, imagens de um cérebro exatamente na hora da morte. O paciente, de 87 anos, tinha epilepsia e estava realizando um exame de eletroencefalografia quando teve um ataque cardíaco fulminante.

“No estudo, foi possível captar instantes antes e depois do momento da morte desse paciente. O que se notou é que 15 segundos antes e depois houve oscilações gama. Então acaba sendo um ritmo de funcionamento eletroencefalográfico bastante alto, com mais de 32 hertz de frequência”, afirma Gomes.

Responsáveis pela atividade sincronizada dos neurônios, as ondas gama também são associadas a fatores como a memória, meditação e aos sonhos humanos. O neurocirurgião explica que durante a fase de sono REM (rapid eye movement, em inglês), em que há um relaxamento do corpo e alta atividade cerebral, essas ondas de alta frequência podem ser captadas.

“Isso mostra uma possibilidade para aquela ideia que a gente tem de que no instante da morte, antes de fato da consciência ir embora, a gente passa por um momento de superconsciência, em que memórias de muita relevância, principalmente emocional, são acionadas, como se passasse um filme da sua vida mesmo. Não dá para provar isso, mas do ponto de vista elétrico isso faz sentido”, diz Gomes.

O neurocientista afirma que, em alguns contextos, torna-se difícil vivenciar qualquer tipo de sensação, como em mortes súbitas ou com extrema dor.

Em casos de morte súbita, é muito difícil interpretar no plano consciente o que está ocorrendo por que o sistema nervoso central simplesmente deixa de funcionar e a consciência se apaga. Por outro lado, em situações onde existe sofrimento envolvido, o indivíduo acaba perdendo a consciência e desmaiando por dor. Existe a liberação de neurotransmissores que podem provocar uma certa sensação de conforto, de analgesia e de bem estar. Talvez isso represente um mecanismo para que a experiência não seja totalmente dolorosamédico neurocirurgião Fernando Gomes, professor livre-docente do Hospital das Clínicas de São PauloFernando Gomes, médico neurocirurgião

Emoções positivas como euforia e aceitação são comuns em descrições de experiências de quase morte / Benmar Schmidhuber/Unsplash

Experiência de quase morte (EQM)

A experiência de quase morte (EQM) é caracterizada por uma redução do fluxo sanguíneo cerebral, que afeta principalmente uma estrutura chamada lobo parietal. Segundo Gomes, do ponto de vista neuronal, o baixo fluxo sanguíneo não é suficiente para provocar um acidente vascular cerebral com lesão irreversível das células, porém mantém algum grau de consciência, de maneira que existe memória sobre a experiência.

“É muito comum o relato da percepção de um túnel com uma luminosidade no final e uma sensação de bem-estar provavelmente provocada pela liberação de neurotransmissores como, por exemplo, derivados de opioides, endorfinas e correlatos”, diz Gomes.

O recrutamento de memórias que tenham um fundo afetivo tem sentido principalmente por que, dessa maneira, o indivíduo entra em um estágio em que as coisas mais importantes do ponto de vista autobiográfico ficam mais em evidênciaFernando Gomes, médico neurocirurgião

Com a perda temporária de função das diversas regiões cerebrais da experiência de quase morte, a pessoa pode experimentar sensações diversas. Uma teoria forte é que, com a ativação de regiões do mesencéfalo, uma parte do cérebro, durante situações de grande estresse físico, como uma parada cardíaca, há liberação de noradrenalina.

O neurologista Felipe Duarte explica que a noradrenalina está envolvida com a reação ao medo e ao estresse, além de estar conectada com regiões de medeiam a emoção, como a amígdala e o hipocampo. Outros neurotransmissores envolvidos parecem ser os opioides endógenos, produzidos pelo próprio cérebro, e a dopamina.

São relatos que pacientes que sobreviveram a uma parada cardíaca e contam de percepções de um extrapolamento da consciência, vendo seu corpo e os cuidados que recebe de fora, passando por uma luz ou um túnel e tendo uma sensação mística, em geral positiva, de conexão com mentais importantes da sua vida e por vezes de escolhas de retornar para a vida terrenaFelipe Chaves Duarte, médico neurologista

A sensação de que se está experimentando uma experiência fora do corpo existe durante padrões interrompidos de sono, como a paralisia do sono, em que a pessoa está dormindo mas ainda está ciente do mundo externo. Existe uma região do cérebro entre os lobos temporal e parietal que, quando estimulada, pode causar uma sensação artificial de se estar fora do corpo.

“Uma possível explicação para a sensação de estar entrando em um túnel de luz acontece quando existe uma queda de pressão nos vasos que irrigam a retina, que ocorre durante paradas cardíacas”, aponta Duarte.

Emoções positivas como euforia e aceitação são comuns em descrições de experiências de quase morte. Existem alguns fármacos, como quetamina, que quando administrados podem simular essas sensações.

“Ela ocorre ao inibir um receptor neuronal chamado NMDA. A base neuroquímica para as sensações positivas pode ser semelhante, pois esses receptores são afetados quando animais se percebem em perigo extremo. Alucinações com pessoas que já faleceram é comum em pessoas com doenças neurodegenerativas, como doença de Parkinson e doença de Alzheimer e falhas em regiões semelhantes podem ocorrer na experiência de quase morte”, detalha Duarte.

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