sábado, 24, fevereiro 2024
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Cientistas estão preocupados com leilão de milhões de dólares de um esqueleto de dinossauro

Especialistas defendem que os esqueletos sejam destinados a repositórios públicos para pesquisa

Um antigo esqueleto de um Gorgossauro foi leiloado pela primeira vez nesta quinta-feira (28) e vendido por pouco mais de US$ 6 milhões. Quem quer que tenha comprado — a identidade não foi comprovado — agora também terá a oportunidade inusitada de nomeá-lo.

Com cerca de 77 milhões de anos, o Gorgossauro é um parente do mortal Tiranossauro rex, mas mais rápido e com uma força de mordida mais forte, de acordo com a Sotheby’s, organizadora da venda.

A Sotheby’s ofereceu o Gorgossauro como destaque em seu leilão de História Natural que começou nesta quinta.

A expectativa da casa de leilões era atrair lances de até US$ 8 milhões.

fóssil foi descoberto em 2018 em terras privadas na Formação do Rio Judith, no condado de Choteau, em Montana, e tem 79 elementos ósseos, conforme a Sotheby’s.

Todos os outros esqueletos de Gorgossauro conhecidos estão em coleções de museus, tornando este o único espécime de seu tipo oferecido para propriedade privada — o que alguns cientistas consideram problemático.

“Na minha carreira, tive o privilégio de manusear e vender muitos objetos excepcionais e únicos, mas poucos têm a capacidade de inspirar maravilhas e capturar a imaginação como esse inacreditável esqueleto de Gorgossauro”, afirmou Cassandra Hatton, chefe global de ciência e cultura popular da Sotheby’s, em um comunicado à imprensa.

“Escavado há apenas alguns anos, um Gorgossauro nunca foi oferecido em leilão, e a oportunidade de compartilhar este dinossauro com o público pela primeira vez é um imenso prazer e um destaque na minha carreira.”

Com pouco mais de 2,8 metros de altura e 6,7 metros de comprimento, o Gorgossauro era um carnívoro alfa que residia nos Estados Unidos e no Canadá durante o final do período Cretáceo.

Assim como o T. rex, o Gorgossauro é um terópode grande e possui características semelhantes ao “irmão”, uma cabeça enorme com dezenas de pontas afiadas, dentes curvos e dois pequenos membros frontais.

“Como o mestre caçador de seu tempo — se acredita que ele caçava em bandos de quatro — o Gorgossauro era uma força dominante e um predador singular”, detalhou Sotheby’s.

O nome do dinossauro é derivado de palavras gregas para “lagarto feroz”.

Leilões de fósseis e ética

A venda do Gorgosaurus é a segunda venda da Sotheby’s de um esqueleto de dinossauro fossilizado.

Em 1997, a casa de leilões vendeu o fóssil de T. rex apelidado de Sue, um dos maiores e mais completos fósseis de dinossauro já encontrados, para o Field Museum, com sede em Chicago, por US$ 8,36 milhões.

O espécime recebeu o nome da colecionadora Sue Hendrickson. Escavado em Dakota do Sul, Sue foi o fóssil mais valioso já vendido em leilão na época.

O leilão de Sue também foi controverso e, na ocasião, o exemplo mais recente do desafio da gestão de recursos fósseis: John W. Hoganson, paleontólogo emérito do North Dakota Geological Survey, escreveu, em uma edição de 1998 do boletim da pesquisa, sobre o impacto potencial no avanço científico de “um próspero mercado internacional de fósseis e a resultante coleta e venda de fósseis por aproveitadores”.

“A comunidade profissional de paleontologia antecipou ansiosamente o leilão do T. rex por causa da incerteza se o espécime importante acabaria em uma coleção particular, tornando-o indisponível para estudo científico e exibição pública, ou em um repositório público neste país”, afirmou. “A preocupação final era o efeito que a venda teria na ciência da paleontologia.”

Durante o mandato de Hoganson, ele estabeleceu a Coleção de Fósseis do Estado de Dakota do Norte e esteve envolvido na criação de uma lei federal para proteger os recursos fósseis em terras federais nos EUA.

Stan, o esqueleto de Tiranossauro rex mais completo do mundo, estabeleceu um novo recorde mundial em 2020, quando foi vendido por US$ 31,8 milhões na Christie’s.

No momento da venda, os paleontólogos temiam que o fóssil estivesse perdido para a ciência, mas, em março, o Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi revelou planos para Stan ser uma atração principal em um novo museu de história natural, com inauguração prevista para 2025 em Abu Dhabi, como a CNN relatou anteriormente.

Alguns cientistas não estão felizes que essa tendência continue.

“Na minha opinião, existem apenas contras”, disse P. David Polly, professor e presidente do departamento de ciências da Terra e atmosféricas da Indiana University Bloomington.

“Embora certamente não haja lei nos EUA que apoie que os fósseis saíam de terras privadas, é muito fácil para mim como cientista argumentar que esse fóssil é importante para todos nós, e que ele realmente deveria estar indo para um repositório público, onde pode ser estudado — onde o público em geral pode aprender com ele e se divertir.”

Os fósseis em terras privadas pertencem a indivíduos privados que podem fazer o que quiserem com eles, enquanto os fósseis em terras públicas são regulamentados pelo governo federal e pertencem essencialmente ao governo ou “às pessoas, se você preferir”, explicou Polly.

“Quando há um fóssil que vai a leilão como este, e se prevê que faça milhões de dólares, uma das coisas que faz é dizer aos proprietários privados que os fósseis em suas terras realmente deveriam ser monetizados”.

Outros especialistas científicos, no entanto, reconheceram que a coleção de museus inclui historicamente aquisições de fontes comerciais.

“Fico triste que haja um preço para os dinossauros”, mas “não é uma questão de preto ou branco”, apontou Gregory Erickson, professor de anatomia e paleobiologia de vertebrados da Universidade Estadual da Flórida em Tallahassee. “Há um histórico de museus comprando espécimes comerciais.”

“É um admirável mundo novo para a nossa ciência”, disse o paleontólogo de vertebrados Steve Brusatte, professor e Presidente Pessoal de Paleontologia e Evolução da Universidade de Edimburgo.

“Em um mundo onde esqueletos de dinossauros valem milhões, onde isso deixa cientistas e museus, que não podem pagar preços tão inflacionados?”

E o que Polly achou que seria o melhor resultado para esse leilão?

“Que quem está vendendo ouviria o que acabei de dizer e teria uma experiência de conversão e doaria para um museu”, pontuou ele. “O segundo melhor seria que alguém rico ouvisse esse tipo de mensagem e desse muito dinheiro (para um museu) para que o estabelecimento pudesse comprar o fóssil”.

Por: CNN

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